Em SP, escola usa Declaração dos Direitos Humanos para combater xenofobia e discriminação entre alunos

Confira aqui a notícia publicada originalmente no site das Nações Unidas – Brasil.

Uma escola pública do bairro do Pari, zona central de São Paulo, tem utilizado a Declaração Universal dos Direitos Humanos como base para projetos que visam ao combate à discriminação contra migrantes e refugiados, que representam 21% do total de 574 alunos da unidade hoje considerada modelo de integração.

Uma escola pública do bairro do Pari, zona central de São Paulo, tem utilizado a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) como base para projetos que visam ao combate à discriminação contra migrantes e refugiados, que representam 21% do total de 574 alunos da unidade hoje considerada modelo de integração.

Seis anos atrás, a Escola Municipal Infante Dom Henrique enfrentava problemas de preconceito e xenofobia contra alunos bolivianos, que formam a maior parte dos estrangeiros da unidade. Houve até mesmo casos de extorsão, em que bolivianos eram coagidos a pagar uma espécie de “pedágio” para não sofrer violência física por parte de outros alunos.

Diante do cenário preocupante, professores da unidade decidiram criar em 2012 o projeto Escola Apropriada — Educação, Cidadania e Direitos Humanos. A iniciativa, em andamento até hoje, zerou os casos de violência física xenofóbica por meio de reuniões quinzenais com alunos estrangeiros e brasileiros, além de pais, para discutir dificuldades e soluções.

“Havia muito preconceito, discriminação contra os alunos bolivianos, que eram sempre considerados culpados por tudo o que acontecia na escola”, explicou o professor de História Cesar Sampaio, que coordenou as atividades do projeto até o ano passado.

“Conversamos com os pais e resolvemos iniciar reuniões com os alunos migrantes e filhos de migrantes. Fizemos uma atividade para que eles descrevessem ou desenhassem seus ‘fantasmas’. Começaram a surgir algumas coisas, o desrespeito (que sofriam)”, contou o professor, lembrando que a atividade posteriormente passou a incluir alunos brasileiros. As reuniões trabalham o artigo 13 da DUDH, que trata do direito de migrar.

Os encontros têm também o intuito de apresentar a cultura dos alunos estrangeiros aos demais, segundo o diretor da escola, Claudio Neto. “Cada aluno que chega apresenta seu país. Recebemos recentemente uma aluna marroquina, e na próxima reunião ela vai apresentar o Marrocos para o grupo”, disse.

O projeto Escola Apropriada foi premiado em 2015 pela prefeitura de São Paulo, e deu origem no ano seguinte à iniciativa “O migrante mora em minha casa”, projeto criado pela professora de História Rosely Marchetti em parceria com o programa “Escravo, nem pensar!” (ONG Repórter Brasil). A iniciativa visa conscientizar os alunos sobre o fato de que todos os brasileiros têm alguma descendência de migrantes externos ou internos, por meio do resgate das árvores genealógicas dos estudantes.

Outros projetos surgiram sobre a mesma temática. Alunas bolivianas passaram a dar aulas de espanhol para alunos brasileiros, que muitas vezes não conseguiam participar das conversas dos estrangeiros nos intervalos por não falar a língua. Os professores também promoveram ações de conscientização sobre o trabalho escravo contemporâneo, como parte do projeto “O migrante mora em minha casa”, e organizaram visitas a locais que abrigavam oficinas de costura clandestinas fechadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) na região do Pari.

“Fizemos uma pesquisa no MPT sobre oficinas irregulares que haviam sido descobertas na região. Fomos visitá-las na porta para mostrar que essa realidade estava próxima deles, não era distante”, explicou Cesar. O trabalho foi feito com alunos do 6º ano do Ensino Fundamental, com idade média de 13 anos.

“A discussão sobre migração estava mais amadurecida, aí puxamos para a discussão sobre trabalho escravo para combater esse crime que é um mal crescente no mundo globalizado. Começamos a lembrar como esse processo se desenvolve até chegar na roupa que vestimos. Percebemos a preocupação dos alunos”, salientou.

Com alunos de idade entre 6 e 14 anos, a Escola Infante Dom Henrique tem, além de bolivianos, alunos migrantes e refugiados paraguaios, uruguaios, argentinos, mexicanos, angolanos, sírios e marroquinos, entre outros.

Em janeiro do ano passado, o colégio foi incluído no Programa de Escolas Associadas (PEA) da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). O PEA é uma rede internacional de escolas que trabalham pela cultura da paz, com projetos ligados a um tema central, determinado pelo Ano Internacional proposto pela UNESCO, e dirigidos à ampliação da consciência de cidadania.

“Os alunos que passaram por esse projeto de formação, de valores e compreensão da realidade, melhoram muito (em relação ao preconceito e à xenofobia). Mas o preconceito da comunidade em geral ainda permanece, nas imediações da escola e alguns pais de alunos”, lembrou o diretor da escola.

“Hoje, os alunos migrantes são protagonistas”, disse o professor Cesar Sampaio. “Transformaram-se de oprimidos a protagonistas. É um grande salto”, concluiu.