Para Valdo e Claudinha

Quando entrei naquele lugar, no final de uma rua de terra em Porto Alegre do Norte, Mato Grosso, vi se materializar um sonho: uma casa pequenina, com uma cozinha aberta, do lado de fora; a biblioteca; a criação de pequenos animais; muitas flores ao redor e uma especialmente colhida para enfeitar a varanda; o cheiro de mato; as árvores enormes, plantadas uma a uma em uma floresta; os tucanos e outros bichos que nela vinham se alimentar e proteger; o silêncio rompido pelo canto dos pássaros e o roçar das folhas; os cachorros abanando o rabo pra nos receber; o viveiro de mudas, berçário de um novo mundo. Nem mesmo parecia estar na cidade. E, nos acolhendo, aquele casal, Valdo e Benvinda, dividindo este refúgio construído com suas mãos, em uma vida.

benvinda_valdoHoje soube que Benvinda se foi. Um câncer lhe arrancou do nosso convívio. Benvinda era professora, e participou ativamente da formação do Escravo, nem pensar!, em 2009. Mais do que isso, foi fundamental no processo de articulação. Em sua escola, mobilizou alunos e comunidade em torno do combate à escravidão, mais uma luta a que se juntou.

Sua casa nos abrigou; comemos da sua comida, bebemos o suco de Araçá Boi colhido no quintal, lemos os poemas de Valdo, compartilhamos as tarde entre amigos, amigas e umas cervejinhas. Em nossa última viagem juntas, no ano passado, Benvinda dividiu comigo sua história de amor, e me deu bons conselhos. Nela, havia esse lado maternal. “Adotou” Claudia Araújo, agente da Comissão Pastoral da Terra, que hoje ficou um pouco órfã, junto com Dandara e Iberê, seus frutos mais bonitos.

Com Valdo e Benvinda, aprendi que era possível construir, no período de uma vida, um pequeno mundo onde existe amor, poesia, amizade e partilha. Aprendi que a natureza nos faz e que podemos ajudá-la a se curar, quando ela padece pelas mãos dos que a sugam em busca de lucro. E, como não foi só a mim que ensinaram isso, essa ideia continuará a ser semeada, mesmo com o fechar dos olhos de Benvinda. Espero que aí Valdo encontre forças para seguir nesse caminho. E, assim, Benvinda permanecerá entre nós. Presente!

Carolina Motoki*
18 de agosto de 2014

*Carolina Motoki coordenou o escritório regional de Araguaína e fez parte da equipe do ENP! entre 2006 e 2012.

Aqui você pode conferir o projeto desenvolvido por Benvinda e sua escola, apoiado pelo ENP! em 2010.

 

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2 Respostas para “Obrigada, Benvinda, por semear amor!”

  1. Érica Lobato

    Carolina, essa é uma descrição que tantos de nós vivemos, bem como os sentimentos, dentre eles, fundamentalmente o da acolhida e não só a física. Gratidão por nos presente(!)ar com esse texto. Abraços

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  2. Eliana

    Esta sua história, Carolina, tivemos a oportunidade de vivenciá-la em 1992, quando chegamos em Porto Alegre do Norte, foi exatamente essa família que nos acolheu em sua casa, desse mesmo jeitinho que você descreve. Com Benvida aprendemos o significado da palavra Amizade.

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